Ontem ia almoçar ao Ritinha como habitualmente. Como estava um sol abrasador, em vez de ir até lá pela rua marginal, como de costume, decidi ir por uma rua de dentro, mais sombria, e que é a rua principal das Lajes. É onde está a maior parte do comércio e serviços da vila. Dessa artéria(!) principal, para chegar ao Ritinha tenho que cortar por uma outra rua, que por acaso é onde vivi inicialmente quando vim para as Lajes. Ou seja, conheço mais ou menos as pessoas ali vivem. Então, quando ia a passar pela horta/terraço/sala de estar exterior do Sr. José e da Srª. Maria (os senhores que organizam a festa do São João), chamaram-me e perguntaram-me onde é que eu ia "com tanta pressa". Quando eu disse que ia almoçar, oh! fui logo desviada do meu caminho. "Vem mas é pr'áqui e junta-te à gente!". E pronto, acabei por almoçar uma saladinha de peixe impecável, acompanhada com o óptimo pão de milho cá da terra, e regada com vinho verde, primeiro, e sangria depois (e que sangria!). E que bem que se estava no fresquinho, na sombra da parreira carregadinha de uvas. Para finalizar, um digestivo, de denominação desconhecida - o Sr. José é muito cioso dos seus segredos - mas penso que era um licor de amora.
Nesse almoço inopinado estava também um casalinho jovem. Ele, cá do Pico e a servir de cicerone, a ela, uma jovem fotógrafa espanhola, à procura de ir ver baleias e golfinhos em troca dos serviços fotográficos; e pronto, lá se deu azo para o estabelecimento do chamado networking. Trouxe o currículo da rapariga para entregar ao patrão e pronto.
À tarde, já de volta à loja, chega o gerente da operação de whale watching aqui no Pico (e dono da loja,) com alguns anéis que tinha feito em dente de cachalote para pôr à venda. Mas antes de irem para a montra tive direito a escolher um para mim. Prenda de amenização? Talvez. Recusar estava fora de questão, portanto.
As surpresas do dia ainda não tinham acabado, porque em cima das 18h (hora de fecho da loja) pára o Lídio, skipper, mecânico e pau-para-toda-a-obra da AquaAçores (a concorrência, portanto) à frente da loja a perguntar porque é que eu não estava no Bodo de Leite. Ora, o Bodo de Leite, pelo que consegui apurar, é uma reunião para a qual os produtores de leite levam as suas vacas leiteiras e respectivos bezerros. É feita a ordenha das vacas, toda a gente bebe leite e partilha de um bolo que se faz especialmente para a ocasião. Há uma missa, provavelmente para abençoar a vacaria toda, e há também um concurso de animais. Portanto, mais uma desculpa para as pessoas se reunirem e conviverem. Depois do lado mais pecuário estar terminado, as famílias continuam por ali durante a tarde e noite e vai-se juntando cada vez mais gente. Cada grupo traz o seu farnel - e que farnéis! - e à boa moda portuguesa monta-se o estaminé completo, com fogão, mesas, cadeiras de praia, bancos improvisados com troncos cortados e almofadas, mantas no chão, enfim, todos os confortos.
Conclusão, acabei por arrumar as minhas coisas à pressa na loja, agarrei só na carteira a tiracolo e, ala!, para o Bodo de Leite. Se já estava a adivinhar que devia ser uma festa muito engraçada e com pena de não ir, não me enganei. Foi das festas mais giras em que estive aqui, a par do São João da minha antiga rua. Ambas respiravam um ar de espontaneadade que lhes dá uma graça especial. O Bodo de Leite em particular ainda preserva o cariz altamente rural e ainda guarda um saborzinho do antigamente. A festa é feita no meio de um bosque de criptomérias muito verde e fresco. Ontem estava-se maravilhosamente bem por lá, depois do calor das Lajes. No pequeno palco montado junto ao caminho, estavam a tocar chamarritas quando cheguei. A chamarrita é a música, e a dança, tradicional do Pico. E havia quem dançasse, mas não era nunhum grupo organizado de folclore. Não, era um bailarico e dançavam-se chamrritas. Foi muito giro de ver. Partilhei da comida e bebida de uma família amiga do Lídio, encontrei-me com gente conhecida das Lajes. Vi um espectáculo de hipnotismo feito por um talento local, que conseguiu pôr homens crescidos a fazer figuras tristes, para diversão de quem via. Para encerrar a festa em grande, Quinzinho de Portugal. Em grande!
Foi um daqueles dias em que fiquei a pensar, está bem, isto é o karma a pôr as contas em dia.
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K maravilha :)))
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